A OpenAI não divulgou. A SentinelOne não anunciou. O que circulou foi um post no X de um engenheiro de IA, Carter Church, dizendo que usou o GPT-6 Astra para decifrar uma carta cifrada endereçada a um dos marechais de Napoleão Bonaparte — uma mensagem que permaneceu ilegível por 217 anos.
A carta é de março de 1809. Foi escrita por Eugène de Beauharnais, enteado de Napoleão e viceroy da Itália, por ordem direta do imperador, e endereçada ao Marechal Auguste de Marmont, que comandava as tropas francesas na Dalmácia. O conteúdo é um briefing militar: posições de tropas francesas e austríacas na véspera da invasão da Áustria em abril de 1809. A instrução final a Marmont era que ele não se intimidasse com "algumas tropas ou uma reunião de rufias".
O que torna o caso interessante não é apenas a decifração em si — Church observa que um especialista dedicado teria podido resolver a cifra em 1970. O que a tornava "não resolvida" é que ninguém qualificava o investimento de semanas em um único documento. A carta estava catalogada como não resolvida no Cryptiana, o principal catálogo mundial de cifras históricas em aberto, mantido por Satoshi Tomokiyo.
O método
A carta tem 24 linhas de dígitos, letras soltas e símbolos inventados — cerca de 1.300 unidades de cifra e 155 sinais distintos. Church partiu de uma placa impressa em uma revista militar francesa de 1969 (artigo de J. Vilcoq), não de um texto pronto.
O processo, segundo seu relato, foi:
- O GPT-6 Astra leu a imagem digitalizada de baixa resolução;
- Reconciliou variações manuscritas dos símbolos;
- Incorporou 33 valores de letras já documentados pelo historiador francês Daniel Tant (cobrindo ~435 das 1.300 unidades);
- Usou um solver de simulated annealing para atribuir valores aos sinais restantes.
Church publicou a chave, a transcrição completa e um script de verificação em 18 de setembro. Qualquer pessoa pode rodar os arquivos e testar a leitura proposta.
Ressalvas importantes
- Cinco dos 155 sinais permanecem sem resolução. Church afirma que nenhuma dessas ambiguidades altera o sentido geral da carta, mas elas existem.
- O tempo de 6 horas de execução é o relato de Church. A OpenAI não confirmou.
- O resultado não é uma autenticação do documento pelo modelo — é um trabalho de pesquisa de arquivo assistida por IA.
- Satoshi Tomokiyo, mantenedor do Cryptiana, revisou a proposta e marcou a carta como "solved", corrigindo a data para 1809. Mas a página do catálogo avisa, em geral, que documentos listados podem ter sido decifrados anteriormente.
O padrão
Este não é o primeiro caso. Em setembro, Carter Leffen, desenvolvedor na Bloomberg, relatou que o mesmo GPT-6 Astra levou cerca de 10 horas para decifrar uma mensagem Enigma do Exército Alemão de 1941, não resolvida por 83 anos. Tomokiyo escreveu em setembro que estava "recebendo muitas soluções" e que não tinha dado conta de registrá-las todas.
Por que importa
O caso Marmont é um exemplo concreto de como modelos multimodais estão combinando transcrição de imagem, pesquisa histórica e análise codificada em problemas de arquivo que eram praticamente inacessíveis. A barreira não era a dificuldade criptográfica — era o tempo e o contexto. E a IA está derrubando exatamente essa barreira.
O que não significa que um modelo "quebrou" a cifra sozinho. Significa que um engenheiro com uma ferramenta poderosa, uma imagem digitalizada e uma meta clara resolveu em dias o que levaria meses a um especialista — e publicou tudo para verificação.
Fontes e referências
- GPT-6 Astra helped decode a 217-year-old cipher letter to Napoleon's marshal — RunTimeWire ↗
- Did GPT-6 Astra Really Crack A Napoleonic Cipher No One Could Read? — Yellow.com ↗
- Breaking the Marmont Cipher, 1809 — Carter Church ↗
- Retrato de Auguste de Marmont — Wikimedia Commons ↗
- 'A kind of Rosetta Stone': AI decodes 217-year-old secret letter ordered by Napoleon — Live Science ↗
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