A descoberta dos raios X completa mais de um século. No mundo industrial, a tecnologia já era usada para detectar corpos estranhos em alimentos, inspecionar soldas em placas de circuito impresso e realizar radiografia industrial de falhas. Fontes de raios X, detectores e estruturas mecânicas possuíam reservas técnicas maduras há décadas.
Em resumo: um setor maduro, previsível, dominado por poucos players globais.
Ou pelo menos é o que a indústria pensava.
"Um oceano vermelho atrás, um oceano azul à frente"
Wang Wei, presidente da Hikvision Ruiying — divisão de inspeção por raios X da Hikvision, fundada em 2020 e operando em inspeção industrial desde 2021 — discorda dessa leitura.
"O raio-X industrial acabou de começar. O setor inteiro ainda está em fase inicial. Olhando para trás, você vê um oceano vermelho. Olhando para a frente, vê um oceano azul", disse Wang Wei em entrevista exclusiva à 36Kr, publicada em 12 de outubro de 2026.
A afirmação ganhou corpo nesta semana: na Industrial Expo, a Hikvision Ruiying lançou um equipamento de inspeção 3D AXI (Automatic X-ray Inspection) de alta precisão para empacotamento de semicondutores, capaz de realizar medições sub-micron — menor que um micrômetro, já na escala nanométrica — com reconstrução de imagem 3D e análise de defeitos.
O resultado: a máquina deixa de ser apenas uma ferramenta de inspeção de produção e passa a atuar como equipamento de medição laboratorial, abrindo acesso a mercados de empacotamento avançado e análise de falha que antes eram fechados a poucos fabricantes globais.
O divisor de águas: de "amostragem" a "inspeção total"
Para Wang Wei, a revolução não está na física do raio-X — que evoluiu pouco na última década —, mas na capacidade de interpretação.
"Até agora, o raio-X conseguia tirar imagens internas, mas muitas dessas imagens não podiam ser interpretadas automaticamente. Então o equipamento só servia para laboratório ou amostragem. Quando a IA consegue entender automaticamente essas imagens, ele passa de inspeção por amostragem para inspeção total", explicou.
E essa transição muda a escala de tudo.
"Uma fábrica pode precisar de um ou dois equipamentos no laboratório para amostragem. Mas quando a inspeção é total, cada linha de produção precisa de um. O número de máquinas é completamente diferente", afirmou.
Esse é o mesmo padrão que transformou a indústria de câmeras nos últimos anos. "Em 2015, era difícil imaginar câmeras industriais em tantas linhas de produção. Depois, com custo caindo e IA subindo, viraram sensores onipresentes. O raio-X está passando por algo parecido: câmeras olham para a superfície, raio-X olha para o interior", comparou Wang Wei.
Casos reais: dobráveis, carnes e laptops
A 36Kr listou exemplos concretos que ilustram o salto:
Smartphones dobráveis. O novo iPhone Duo — a primeira geração dobrável da Apple — reacendeu o interesse global na tecnologia de dobradiças. Uma dobradiça de um smartphone dobrável pode conter centenas de componentes. Até pouco tempo atrás, a inspeção era feita com lupa, olhando apenas a superfície, com risco alto de defeitos internos passarem despercebidos. A Hikvision Ruiying começou a usar raio-X + IA para inspeção automática de dobradiças alguns anos atrás. O resultado: redução da taxa de defeitos em uma ordem de grandeza (10×).
Processamento de carnes. O raio-X tradicional já detectava restos de osso e corpos estranhos. Com a adição de algoritmos de IA e modelos de linguagem, a Ruiying passou a fazer algo inédito: medição da taxa de gordura em carnes. "A proporção de gordura magra versus gordura em carne suína, por exemplo, muda sabor e preço. Antes, só pouquíssimas empresas no mundo faziam isso, e os equipamentos eram caros", relatou Wang Wei.
Laptops, lápis de sobrancelha e peças automotivas. A inspeção de notebooks inteiros, de molas internas de lápis de sobrancelha e de componentes automotivos são outros exemplos de aplicações que não faziam sentido econômico no passado — mas que se viabilizaram com a redução de custos e o ganho de precisão da IA.
O papel do large model: 100 imagens em vez de 10.000
Um dos pontos mais reveladores da entrevista é a discussão sobre modelos de linguagem e aprendizado com poucos dados.
"Na abordagem tradicional, para treinar um modelo de inspeção de uma dobradiça, você precisava de milhares, às vezes de dezenas de milhares de imagens anotadas. Com o base model da Hikvision (plataforma Guanlan), um novo produto pode ser aprendido com 100 a 300 imagens. E se o produto é uma variação de algo que já foi treinado antes, cerca de 10 imagens são suficientes", explicou Wang Wei.
A analogia que ele usa é certeira: "É como se o modelo já estivesse no ensino fundamental. Você só precisa ensinar os detalhes específicos."
O impacto prático é enorme para a manufatura de múltiplos SKUs e pequenos lotes, onde o tempo de desenvolvimento é o gargalo. "Se você reduz de 10.000 para 200 imagens, o processo de preparação de dados fica dezenas de vezes mais rápido", resumiu.
"A IA é a nova variável decisiva"
Wang Wei é direto sobre o que está mudando o mercado:
"A IA está se tornando uma nova variável decisiva no raio-X industrial. Não é mais só sobre física — é sobre interpretação. E interpretação é onde a IA brilha."
A empresa, que já usa deep learning desde a primeira geração de produtos, migrou recentemente de pequenos modelos para modelos de linguagem. A próxima fronteira, segundo Wang Wei, é a evolução autônoma: equipamentos que aprendem continuamente com os dados de inspeção, ajustam parâmetros sozinhos e até retroalimentam o processo produtivo anterior.
"O futuro é sem dúvida inteligente. O requisito mais alto de hoje pode ser o padrão mínimo de amanhã", concluiu.
Contexto: a Hikvision além da segurança
Muita gente ainda associa a Hikvision apenas à segurança eletrônica. Mas desde 2016, a empresa vem executando uma transformação estratégica de dez anos, expandindo suas capacidades em IoT perceptiva e IA para setores como semicondutores, automotivo e eletrônicos de consumo. O modelo "Ficus" (nome interno da estratégia, inspirado na árvore figueira) já construiu oito divisões de negócios inovadoras, incluindo Hikvision Robotics, Hikvision Microvision e Hikvision Automotive Electronics.
A Hikvision Ruiying é uma dessas divisões — e, segundo Wang Wei, uma das que mais rapidamente se tornou player de primeira linha no mercado de raio-X industrial, figurando entre os três primeiros em diversos nichos na China.
Por que isso importa
O caso da Hikvision Ruiying é um microcosmo de uma tendência maior: a IA não está apenas melhorando ferramentas existentes — está criando aplicações que antes eram economicamente inviáveis. O raio-X, tecnologia de mais de 100 anos, está descobrindo novos usos justamente porque a interpretação automática finalmente se tornou viável.
E se isso vale para uma empresa chinesa de segurança eletrônica, vale para qualquer setor industrial que dependa de inspeção não destrutiva.
Fontes:
- 36Kr — "Exclusive Interview with Hikvision Ruiying's Wang Wei: How AI is Redefining Century-Old X-Ray Technology" (12/10/2026)
- 36Kr — "2024专访海康睿影王威:百年X光技术 正被AI重新定义革新" (12/10/2026)
- Hikvision — X-Ray Technology (página oficial de tecnologia)
- HikRay — 6550 Series ISD-SC6550S-H4CVL
- OEM Update — Hikvision launches next-gen AI-powered X-ray security inspection in India (03/2026)
Fontes e referências
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