O salto: de 8.300 para 172.000 terabits em quatro anos
A indústria de robôs humanoides está prestes a virar um dos maiores mercados de memória do mundo. Segundo a Counterpoint Research, a demanda por DRAM vinda do setor deve saltar de aproximadamente 8.300 terabits (Tbit) em 2026 para cerca de 172.000 Tbit em 2030 — um crescimento de mais de 20 vezes em apenas quatro anos.
O número coloca os humanoides no mesmo patamar de importância que os data centers de IA ocuparam nos últimos dois anos, quando o HBM (High Bandwidth Memory) virou o produto mais disputado da indústria de semicondutores.
O que está por trás do boom
Duas forças simultâneas explicam o salto:
- Mais robôs nas ruas. As estimativas de Smart Analytics Global projetam que o volume global de embarques de humanoides triplique este ano, para 60 mil unidades, e alcance 500 mil em 2030. A Goldman Sachs, em seu relatório "Physical AI" de agosto, já revisou para cima a projeção de 2030 para 890 mil unidades.
- Mais memória por robô. A capacidade média de DRAM por unidade deve mais que dobrar, de 19 GB em 2026 para 39 GB em 2030. O motivo: os robôs estão abandonando arquiteturas hierárquicas (percepção → planejamento → ação) em favor de modelos end-to-end que integram câmeras, LiDAR e sensores táteis diretamente em uma única rede neural.
O "cérebro" do robô: LPDDR e NAND de alta capacidade
Diferente de um data center, que roda em rede elétrica, um humanoido é limitado pela bateria. Isso muda radicalmente o perfil da memória necessária:
- LPDDR (Low-Power DRAM) — o mesmo tipo usado em smartphones — deve dominar, pois a eficiência energética determina diretamente a autonomia e o desempenho do robô.
- NAND flash de alta capacidade — usado para armazenamento em edge — entra como coadjuvante importante, especialmente para modelos com "world models" que aprendem e prevêem o ambiente em tempo real.
- 3D DRAM — a próxima geração de empilhamento de memória — já é citada pela Counterpoint como tendência de médio prazo.
A Nvidia já sinalizou essa direção: sua plataforma Jetson AGX Thor, desenhada para humanoides, embarca 128 GB de LPDDR5X.
O que Samsung e SK Hynix estão fazendo
Samsung Electronics anunciou em julho que está "preparando proativamente soluções de semicondutores para robôs de próxima geração, cobrindo memória LPDDR de alta largura de banda, sensores de imagem, serviços de foundry e packaging avançado". A divisão Device eXperience (DX) também está criando um escritório dedicado — o Robot eXperience — para desenvolver humanoides próprios.
SK Hynix tem planos de desenvolver conjuntamente com a Nvidia a memória de próxima geração para a plataforma Jetson Thor. A empresa detém 50% de market share no mercado global de HBM no 2º trimestre de 2026, com 33% para a Samsung — números que dão às duas coreanas uma vantagem estrutural no novo mercado.
Micron, dos EUA, já está monitorando o movimento. O CEO Sanjay Mehrotra, em call de resultados do Q4 fiscal 2026, afirmou: "Veículos autônomos nível 4 e acima tipicamente carregam mais de 200 GB de memória e alguns terabytes de armazenamento. Robôs humanoides vão exigir níveis similares."
Por que isso importa para o Brasil
- Cadeia de suprimentos: robôs humanoides vão demandar chips de memória em escala industrial, o que pode pressionar preços de DRAM e NAND em todo o mercado — incluindo o que alimenta smartphones, notebooks e PCs vendidos no Brasil.
- Nova fronteira coreana: a Coreia do Sul já é o maior player mundial em HBM. Se os humanoides virarem o próximo grande mercado, as empresas coreanas ganham uma segunda perna de crescimento além de data centers — o que fortalece sua posição geopolítica na indústria de semicondutores.
- Competidores emergentes: a Kioxia (Japão) está expandindo sua linha de SSDs de alta capacidade para a era da IA, e startups como a Highlanders (spin-off da Universidade de Tóquio, com investimento da Mitsubishi Motors) já buscam produção em massa de humanoides japoneses. A corrida não é só coreana.
O que vem a seguir
A Counterpoint estima que a demanda por semicondutores de computação — incluindo GPUs da Nvidia e ASICs proprietários de Tesla e Xpeng — vai crescer em paralelo à de memória. O relatório também projeta que, em cada robô humanoide, a "memória" pode representar até 40% do valor dos semicondutores, excluindo GPU e CPU.
O mercado de humanoides ainda está em fase inicial. Mas a matemática está clara: se a adoção seguir as projeções, a demanda por chips de memória vai multiplicar-se 20 vezes em quatro anos — e as duas empresas que mais investem em memória de baixa potência e alta capacidade são coreanas.
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