IA esgota até capacitores e resistores: a demanda ultrapassou a memória e chegou aos componentes mais básicos da eletrônica

Durante anos, o setor de hardware viveu uma rotina previsível: memórias RAM e SSDs esgotavam em picos de demanda, mas os componentes passivos — capacitores, resistores, indutores — sempre sobravam. Eram baratos, em abundância, e ninguém nem pensava neles.

Essa calma acabou.

A IA não esgotou só memória: esgotou o básico

A demanda de IA por data centers está tão avassaladora que já ultrapassou os componentes que antes eram abundantes e baratos. Capacitores cerâmicos multicamada (MLCCs) e resistores de chip — os componentes mais fundamentais e em maior volume de qualquer placa de circuito — estão em escasseão, com fornecedores de Taiwan reportando receitas recordes e previsões de alta de preço.

Não é uma oscilação de mercado. É um esgotamento estrutural de capacidade produtiva.

Números que impressionam

A Yageo, maior fabricante de componentes passivos do mundo (e de Taiwan), reportou:

  • Receita do 2º trimestre de US$ 1,5 bilhão, alta de 35,7% na comparação anual
  • Receita de junho em recorde histórico (NT$ 15,36 bilhões)
  • Seis meses consecutivos de recordes mensais de receita

Mas a Yageo não está sozinha. Uma onda de fornecedores de Taiwan reportou receitas recorde no trimestre:

Empresa Foco Destaque
Yageo Resistores e MLCCs 6º recorde mensal consecutivo
Walsin Technology MLCCs Melhor trimestre em quase 20 anos
Viking Tech Resistores de chip Jun/26 +28,7% a/a
Ever Ohms Resistores de chip Jun/26 +66,5% a/a
Prosperity Dielectrics MLCCs de alta tensão Melhor mês em 57 meses
Thinking Electronic Componentes de proteção Primeiro mês acima de NT$ 900 mi
Tai-Tech Resistores Recebendo pedidos deslocados

A Thinking Electronic — que fabrica varistores e TVS diodes — superou pela primeira vez a marca de NT$ 900 milhões em um mês, um crescimento de 46,6% a/a. Isso não é crescimento: é uma explosão.

Por que a IA come capacitores?

Um servidor de IA precisa de 3 a 5 vezes mais MLCCs que um servidor tradicional. A plataforma GB300 NVL72 da Nvidia usa cerca de 440.000 MLCCs por rack. A próxima geração, Vera Rubin VR200 NVL72, estimada em 600.000 MLCCs — um aumento de 36%.

Um carro elétrico com condução autônoma nível 2+ usa mais de 10.000 MLCCs. Um smartphone usa apenas 800 a 1.000. A proporção é absurda.

Os servidores de IA também exigem componentes de alta tensão e alta capacitância para gerenciar o consumo elétrico brutal dos aceleradores. Isso empurra a demanda para o topo da cadeia — exatamente onde a capacidade produtiva é mais limitada.

O efeito dominó que ninguém viu chegando

Aqui está o ponto que poucos estão discutindo: a escasseão não vai parar em data centers.

Quando os grandes fornecedores (Murata, Samsung Electro-Mechanics, Yageo) direcionam sua capacidade para componentes de alta margem para IA, as linhas de produção de componentes de baixa margem e alto volume — os usados em eletrodomésticos, eletroeletrônicos de consumo, automóveis, dispositivos médicos — ficam sem espaço na fila.

O resultado é um efeito cascata que atinge indústrias que nem se consideram "tech":

  • 🏠 Eletrodomésticos — fogões, geladeiras, lavadoras, micro-ondas: cada um tem dezenas ou centenas de capacitores e resistores.
  • 🚗 Automotivo — carros modernos (especialmente elétricos) usam milhares de MLCCs. A produção de carros está sendo afetada.
  • 📺 Eletroeletrônicos de consumo — TVs, soundbars, consoles: a demanda por MLCCs de médio porte está sendo disputada com os de data center.
  • 🏭 Indústria — máquinas industriais, robôs, controladores lógicos: todos dependem de componentes passivos.
  • 📱 Smartphones e laptops — fabricantes já estão estocando componentes antecipadamente por medo de altas de preço futuras.

As altas de preço já começaram

Os sinais estão claros:

  • Yageo aumentou preços de resistores de chip em 15–20% a partir de fevereiro
  • Taiyo Yuden (Japão) avisou clientes sobre alta de preços de MLCCs a partir de maio
  • Murata investirá US$ 1,56 bilhão em capacidade, mas o aumento projetado é de apenas 20% em dois anos — insuficiente para a demanda
  • Preços de spot de MLCCs para consumo já subiram 20–40%
  • Prazos de entrega esticaram de 10 para até 24 semanas globalmente

O CEO da Taiyo Yuden descreveu o nível de demanda como "assustador".

Por que isso é diferente dos ciclos anteriores

A indústria de componentes passivos já passou por cinco grandes ciclos de expansão em 20 anos. Mas os anteriores foram movidos por recuperações econômicas e demanda de consumo.

Este ciclo é diferente por três razões:

  1. A demanda é estrutural — data centers de IA não são um pico sazonal. São uma infraestrutura permanente que está crescendo exponencialmente.
  2. A demanda é concentrada em componentes de alta especificação — os grandes players (Murata, Samsung, Yageo) estão direcionando capacidade para o topo, empurrando o resto do mercado para escasseão.
  3. A recuperação de capacidade é lenta — construir novas fábricas de componentes passivos leva anos. E a demanda de IA está crescendo mais rápido que a oferta pode responder.

O que isso significa para o consumidor

Se você é um montador de PC, o impacto ainda é limitado — os preços de MLCCs e resistores não aparecem diretamente na BOM. Mas o efeito indireto será sentido:

  • Notebooks e laptops podem ficar mais caros ou com lançamentos atrasados
  • Consoles e acessórios podem ter reajustes
  • Eletrodomésticos em geral (fogão, geladeira, micro-ondas) podem sentir o impacto
  • Carros elétricos podem ver a produção pressionada

A pergunta que o setor de hardware brasileiro deve se fazer não é "quanto vai custar um SSD a mais?" — é "quantos eletrodomésticos vão ficar mais caros porque a IA comeu a capacidade de produção de componentes básicos?"

A pergunta que ninguém quer responder

A IA está criando uma escasseão global de componentes eletrônicos básicos. Não é uma crise de memória. Não é uma crise de GPU. É uma crise de capacitores e resistores — os componentes mais fundamentais, mais baratos e mais em abundância da história da eletrônica.

E quando o componente mais básico e barato do mundo entra em escasseão, não existe nenhuma indústria que não seja afetada.

Isso não é uma história de "quem não tem GPU não entra na IA". É uma história de "quem não tem capacitor não liga o fogão".

Fontes e referências

Eric
Eric

Editor responsável pela Gbyte News.

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