Um estudo publicado na revista Bioorganic Chemistry apresenta um avanço promissor na pesquisa contra a doença de Alzheimer: um péptido sintético batizado de P33 que reduz em mais de 50% a produção da proteína beta-amiloide (Aβ) em neurônios de camundongos, sem causar danos celulares. O trabalho foi realizado por um consórcio de pesquisadores do Instituto de Bioengenharia da Catalunha (IBEC), do Instituto de Química Avançada da Catalunha (IQAC-CSIC), da Universidade de Barcelona e do Instituto de Biomedicina (IRB Barcelona).
A proteína beta-amiloide é o principal componente das placas amiloides que se acumulam no cérebro de pacientes com Alzheimer. Para combatê-la, a indústria farmacêutica tem tentado inibir a enzima BACE1, responsável por "cortar" outra proteína para gerar a Aβ. No entanto, drogas que bloqueiam a BACE1 por completo fracassaram em testes clínicos, em grande parte porque a enzima tem outras funções essenciais no organismo, e inibi-la totalmente causa efeitos colaterais graves.
A equipe liderada pelo grupo de Neurobiotecnologia Molecular e Celular do IBEC adotou uma estratégia diferente: em vez de bloquear a BACE1 completamente, eles projetaram péptidos curtos, cadeias químicas similares às que compõem proteínas, e os modificaram quimicamente para que o corpo não os decompusesse rapidamente e para que conseguissem entrar nas células onde a Aβ é produzida.
"Analisamos uma biblioteca de 50 dessas moléculas em neurônios cultivados. O P33 se destacou porque claramente reduziu a beta-amiloide sem danificar as células e, além disso, diminuiu seletivamente a atividade da BACE1", explicou Dayaneth Jácome, primeira autora do estudo e pesquisadora do IBEC.
Nos neurônios cultivados de camundongos, o P33 reduziu a liberação de Aβ para menos da metade, sem danificar as células. Também diminuiu em mais de 50% a atividade associada à BACE1, sem afetar significativamente a enzima muito semelhante BACE2 — o que sugere seletividade molecular, um requisito fundamental para um futuro fármaco.
O estudo foi conduzido em dois níveis: in vitro, com neurônios cultivados em laboratório, e in vivo, em um modelo murino da doença. Em ambos os cenários, o P33 demonstrou eficácia na redução da produção de Aβ, o que o posiciona como um candidato a ser desenvolvido como terapia para o Alzheimer.
A pesquisa é significativa porque oferece uma abordagem mais precisa do que os inibidores tradicionais de BACE1. Em vez de uma "guerra" contra a enzima, o P33 age como um regulador seletivo, preservando as funções essenciais da BACE1 enquanto reduz a produção excessiva da proteína tóxica. Os autores destacam que o próximo passo é traduzir os achados para modelos mais complexos e, eventualmente, iniciar estudos pré-clínicos.
Para os milhões de pessoas que vivem com Alzheimer no mundo, qualquer avanço que ofereça uma via terapêutica menos tóxica é motivo de otimismo. O péptido P33 não é uma cura, mas representa um passo concreto na direção de tratamentos que ataquem a causa molecular da doença, e não apenas os sintomas.
Fontes e referências
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